Festival reata laços com musicalidade afro
free-lance para a Folha
O CCBB paulistano dá hoje mais uma braçada contra a maré, no oceano de interrogações que nos separa do "continente desconhecido". Alinhado com as expedições comerciais e geopolíticas empreendidas pelo governo Lula e o desejo continuamente reafirmado do ministro Gilberto Gil de aproximação com os países do outro extremo do Atlântico Sul, o projeto "Conexão África" ajuda a reatar, pela via musical, os tão esgarçados laços históricos entre Brasil e África.
Como a idéia é estabelecer pontes, quem abre a série de quatro shows semanais, nesta noite, é justamente um nobre herdeiro do legado trazido pela diáspora negra: o pernambucano Naná Vasconcelos. Cabe a ele e aos paulistas Décio Gioielli (também percussionista, que se apresenta dia 17) e Baratzil (sexteto programado para 2 de março) fazer as honras de anfitriões das atrações internacionais, programadas para março.
Para Naná, a absorção do arcabouço cultural africano sempre foi criativa. "A capoeira vem de um lugar da África e o berimbau de outro; quem juntou os dois fomos nós", exemplifica. "Muita coisa da África veio para cá e não existe mais lá, por causa da colonização; outras, como certos instrumentos, nós incorporamos de um jeito diferente e só se toca daquele modo por aqui."
A dificuldade logística é um impeditivo para a circulação de artistas africanos pelo Brasil. (Pela falta de vôos diretos, uma passagem aérea com baldeação pela Europa custa entre R$ 5 mil e R$ 6 mil). Neste contexto, os holofotes da curiosidade recaem com força extra sobre os convidados africanos, pela primeira vez no país.
O senegalês Bay Fall divide o palco, dia 2, com o grupo Baratzil ("Terra da Luz", no idioma Abanhengá); na terça seguinte, dia 9, é a vez do guineano Billy Konatê.
Na atual amostra, o recorte percussivo da produção musical africana está em primeiro plano. "De início o projeto se chamaria 'África Antiga', porque a idéia era mesmo mostrar um pouco da tradição", conta o curador do projeto, o percussionista Luis Kinugawa, 30, que viveu por dois anos entre Guiné, Serra Leoa e Senegal.
Bay Fall é originário de uma família de griots, músicos ambulantes e espécie de guardiões da história oral e da tradição, a quem se atribui poderes mágicos. Seu show costuma alinhar canções folclóricas. A fonte é tanto religiosa como pagã.
Billy Nankouma Konatê tem estilo diverso, mais cadenciado. Apresenta-se acompanhado de dançarinas e um quarteto com instrumentos de corda como o bolon (espécie de contrabaixo, de quatro cordas) e o ngoni (de sete cordas), usados entre a realeza no império Mandinga, no século 13.
Parte dos temas tem acompanhamento vocal frases curtas, estruturadas como "pergunta-e-resposta" entre a voz principal e o coro. "São músicas nascidas nos mutirões de trabalho, na colheita, na pesca", diz Kinugawa.
TERÇAS MUSICAIS - CONEXÃO ÁFRICA
Quando: abertura, hoje, com Naná Vasconcelos. Shows às 13h e 19h30. Dia 17, Décio Gioielli; 2 de março, Bay Fall e Baratzil; 9 de março, Billy Konatê
Onde: Centro Cultural Banco do Brasil (r. Álvares Penteado, 112, centro, tel.: 3113-3618)
Quanto: R$ 6
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