Homens,
mulheres e crianças são obrigados a abandonar seu país por causa de
guerras e perseguições. Pensando nisso, o Sesc São Paulo criou um
programa para ajudar refugiados que chegam à cidade querendo recomeçar.
Sandra Patrícia, da república da Colômbia.
Juju, da república democrática do Congo.
Mike, sul da república do Congo.
Ivo, de Camarões.
Falar o próprio nome, dizer de onde veio.
"Quando eu cheguei ao Brasil eu não entendia nada, nada. Eu
ficava com raiva todo o tempo, porque eu não entendia nada", lembra a
colombiana Ana Dominguez, 20 anos.
Vencer a primeira barreira, a da comunicação. Para isso, aulas
de português. “Eu quero que vocês olhem o jornal e escolham uma
manchete com os verbos no presente", orienta a professora Rosângela
Portela.
Com a ajuda dela, os alunos se familiarizam com nossa língua. “O que é invadir?”, ela pergunta. “Invadir é quando uma persona se mete a um lugar onde no le pertenence, não?", responde a aluna.
Eles são refugiados, pessoas que tiveram que abandonar a terra
natal. “Anos atrás, eu fui envenenada na Colômbia”, conta Damaris
Hernandez, 45 anos, vivendo no Brasil desde abril. “Eu tive problemas
com membros de uma guerrilha existente no Peru faz 20 anos", diz Aldo
Sumaeda, 41, aqui desde fevereiro.
"O curso de português é um elo entre os alunos e o novo país
que eles acabam de entrar", resume a professora Rosângela, que também é
jornalista.
Ligado à ONU, o programa de atendimento a refugiados
estrangeiros do Sesc atende desde 1997 asilados políticos, religiosos e
étnicos. É um contingente de 3.500 pessoas,1.600 delas apenas em São
Paulo.
"Quando ele sai do país ele acaba tendo que abandonar a sua
rotina, o seu trabalho e a sua casa. Então, o Sesc acaba ajudando nessa
primeira inserção", diz a coordenadora do programa, Denise Collus.
Uma das grandes dificuldades do refugiado é encontrar emprego. "Muito difícil, demais difícil", diz Ana.
E para isso, Ana sabe que falar português é indispensável. “Si,
porque é muito diferente, então necessitamos para trabalhar, para
comprar, para qualquer coisa, estamos falando em português", diz.
Ameaçada, ela teve que fugir da Colômbia com o marido e o filho. "Na Colômbia nós temos problemas com as Farc".
Arnaldo também foi obrigado a abandonar seu país, Guiné-Bissau,
na África. "Porque na Guiné há um conflito. Como eu não podia sofrer,
eu saí de guiné para aqui, o Brasil", explica.
Fotografia
Arnaldo é o autor de uma fotografia
impressionante, um flagrante de meninos de rua no vale do Anhangabaú,
centro de São Paulo. "Aqui a gente atravessou. Nós estamos em cima do
viaduto do Chá, olhando lá pra baixo, pro Anhangabaú, quando você viu
as crianças", lembra, junto com ele, o fotógrafo Thales Trigo.
Os refugiados tiraram 1300 fotos da cidade. Cinqüenta e duas
formam a exposição "expressões do refúgio". É o olhar, muitas vezes
surpreso, sobre quem os acolheu. "Eles acham que nós somos ricos demais
para ter gente tão descuidada, tão pobre, tão perdida", resume Thales.
Música
"Dos quatro cantos do mundo". É o nome do coral, que tem a marca da diversidade.
"Os refugiados vem para cá e trazem suas músicas, parte de sua
cultura. E chegando aqui, têm contato com os brasileiros. E esse
intercâmbio se faz principalmente através da dança, da música, esse
contato cultural", explica o músico Carlinhos Antunes, que comanda o
grupo.
O grupo se reúne duas vezes por semana para cantar canções de
diversas terras. “Gâmbia, Congo, Guiné, Costa do Marfim, México e
Brasil", enumera Antunes.
"Faz pessoas se conhecerem mais, faz as pessoas ficarem amigos,
amigas, irmãos, irmãs", concorda Lamin Câmara, 26 anos. "A música ela
acolhe, faz com que o indivíduo fique próximo da cultura dele, pelo
menos possa aliviar um pouco o coração, a mente assim, por alguns
momentos", diz o musicoterapeuta que acompanha o coral, Luis Kinugawa.